Juventude

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Marcelo Neri apresenta pesquisa e diz: “País vive uma pororoca jovem”
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BRASÍLIA, QUA, 24-07-2013
G1 – Nova Ética Social – Amelia Gonzalez
O Brasil nunca teve uma população tão jovem como agora: 51 milhões de pessoas que têm entre 15 e 29 anos, ou seja, 26% dos habitantes. E, pela curva demográfica, nos próximos vinte anos este vai continuar sendo o perfil do país. Depois disso, vai declinar: há uma tendência de queda na fecundidade e a expectativa é que no fim do século a juventude brasileira vai ser 60% do número de jovens que se tem hoje.
O presidente do Ipea, Marcelo Neri, apresenta a pesquisa para a imprensa no Centro do Rio
Essa conclusão, da pesquisa desenvolvida pela Secretaria de Ações Estratégicas (SAE), foi divulgada ontem pela manhã em entrevista coletiva no Centro do Rio. Marcelo Neri, atual secretário da SAE, chama o fenômeno de “pororoca jovem”: “Nunca foi tão grande o número de jovens, nunca será tão grande, mas durante quase 20 anos vamos ter essa realidade: e como o jovem é a porta de entrada para os valores da sociedade, é preciso entendê-los melhor”.
É a maior força de trabalho que o país já teve. É, também, a maior força política, já que os jovens votam.
Fiquei curiosa para saber qual o sentimento de um jovem incluído no sistema ao saber que vive um momento histórico. Conversei com Pilar Ferreira Motta, 20 anos, moradora da Zona Sul, atualmente cursando a faculdade de Relações Internacionais. Perguntei se ela sentia euforia, medo, indiferença…
— Meu sentimento, agora, é de euforia. Porque parecia que estávamos numa inércia muito grande, sabendo de todas as falcatruas feitas pelos políticos e, aparentemente, deixando que as coisas acontecessem e aceitando, de forma pacífica. Mas isso mudou. Daí que é muito bom pertencer a uma geração que não está mais parada, que sabe reivindicar. A única questão é que está faltando foco nas reivindicações — disse ela.
— E para você? Qual seria o foco? – perguntei.
— Espera, deixa eu pensar um pouco… educação! Mas, veja bem: não é educação de qualquer jeito, é educação com qualidade, entende? Porque cada vez mais, hoje em dia, o mercado de trabalho exige especializações. Se antigamente saber inglês já era suficiente, hoje a gente tem que saber duas, às vezes três línguas, para ser incluído no mercado de trabalho. Se antes era preciso saber lidar com o Word, hoje é preciso saber fazer planilhas no Excel, usar o Power Point… Então, se é para fazer políticas públicas a favor do jovem, tem que mexer na qualidade de ensino. E não adianta fazer isso só na faculdade não! Tem que ser desde o Ensino Médio, ou mesmo antes, para o aluno não cair de repente na faculdade e ficar aquele vazio de coisas que ele não aprendeu lá atrás — pontuou.
Busquei uma outra ponta da pirâmide. Rodolfo, sobrenome? “Baiano”, que tem 21 anos e atende no balcão da farmácia levanta os olhos e fica em silêncio um tempo para me responder sobre o sentimento que lhe vinha ao se ver parte de uma geração inigualável em números absolutos e relativos:
— Olha, vou lhe dizer: se o país não mudar agora, não muda nunca mais. Porque o pessoal jovem está na rua, está ciente dos seus direitos como nunca esteve, entende? E se somos tantos como você está me dizendo, não vai ter como as autoridades não ouvirem – disse ele.
A questão que mais afeta a Rodolfo é, também, a educação. Precisa disso para se preparar para o mercado de trabalho. No fim do ano, se tudo der certo e ele conseguir ingressar, vai para a Polícia Militar. E se não der certo?
— Vou estudar farmácia. Mas, sabe? Já até passei para uma faculdade paga e parei. Porque não adianta nada. Eu estava gastando um dinheirão para estudar e não estava aprendendo. Aí, pensei: ora, vou estudar e tentar uma universidade pública. Lá eu sei que vou conseguir aprender muito mais e que vai me dar mais chance no mercado de trabalho depois de me formar. Porque o mercado não dá valor para determinadas faculdades.
Minha minipesquisa terminou aí. Mas os pesquisadores da SAE foram a campo e ouviram dez mil jovens com a mesma metodologia do estudo que está sendo feito no mundo inteiro pelo pessoal da ONU — “Pontos de Vista para uma Nova Agenda em Desenvolvimento” — como já contei aqui em outro texto. Trata-se de um relatório que vai ajudar os líderes das Nações Unidas a traçarem uma nova agenda de desenvolvimento pós-2015, ano em que termina o prazo para se alcançar os oito Objetivos do Milênio propostos pelo ex-secretário-geral Kofi Annan. Já foram ouvidos 200 mil pessoas de 83 países. A pesquisa da SAE é a primeira parte de um estudo mais abrangente que está sendo feito sobre o jovem.
Na verdade, há poucas novidades no resultado deste estudo nacional. Como faz a ONU, foram propostos 16 possibilidades , pedindo que cada um escolhesse seis temas de suas prioridades para criar um mundo melhor. Os mais jovens escolheram educação de qualidade como tema prioriário; os adultos querem acesso a alimentos de qualidade. Em segundo lugar, para os mais jovens está a necessidade de melhores oportunidades de trabalho, enquanto para os adultos é a melhoria dos serviços de saúde.
A juventude dos “máximos”, chamada assim no estudo, coloca desafios para si, para a sociedade e para as políticas públicas, conclui o relatório apresentado também por Ricardo Paes de Barros, subsecretário de Ações Estratégicas. “Entre eles: adequação dos sistemas educacionais; expansão do mercado de trabalho; adequação dos sistemas de previdência social; adequação dos sistemas de saúde.”
A agenda é a mesma de sempre. Um detalhe ainda menos confortável no resultado da pesquisa de campo é o fato de que a preocupação com as mudanças climáticas ganham meros 7% de preocupação, tanto para jovens quanto para adultos. Compartilho com Pilar a minha surpresa, e ela me responde:
— Na boa? Isso não é mesmo um tema que esteja fazendo parte das pessoas no dia a dia. Eu tenho preocupações ambientais, com reuso e reciclagem, mas porque fui educada num colégio que me ensinou isso. Mas meus amigos, em geral, estão mais focados no dia a dia. Sabe quando vai começar a preocupar as pessoas? Quando elas tiverem que pagar R$ 10 por uma garrafinha de água mineral, quando mexer no bolso.
Fiquei preocupada também com as considerações finais do relatório. Ali fala em expansão do mercado de trabalho. Sim, isso é ótimo. Mas, em que condições? Como estou lendo sobre a rotina difícil dos funcionários de telemarketing, e pensando também em tantas outras profissões sacrificadas, que não acrescentam nada em termos de qualidade de vida, senti falta de um atributo qualquer a esta “expansão”. Perguntei a Marcelo Neri como o Estado, com políticas públicas, poderia interceder para criar trabalhos mais compatíveis com qualidade de vida, não com metas. Ele lembrou-me que esta é uma pesquisa de base, para listar prioridades, não para fazer políticas públicas:
—- É um primeiro esforço, uma primeira abordagem para olharmos com atenção para esse público tão importante. Mas a Secretaria de Assuntos Estratégicos não faz políticas públicas. O que vimos é que a juventude de hoje está em busca de qualidade mas também de adequação. As melhores escolas do Brasil, hoje, podem se tornar inadequadas pela maneira como os jovens querem aprender. Tem uma mudança de paradigma. Isso está sendo explorado pela SAE e vamos mostrar em outros momentos, nosso estudo ainda terá desdobramentos. – respondeu-me o secretário.
E o transporte, aparente fagulha que detonou todas as manifestações recentes, foi citado por 40,9% dos entrevistados na pesquisa do Ipea. Pilar lembra que este também pode ser um ponto de adequação para melhorar a educação. Ela morou na Austrália, onde crianças e jovens não precisam se deslocar para ir à aula: há uma escola boa em cada bairro.
—- Isso é uma coisa que ainda está longe de acontecer aqui no Brasil — conclui.
Crédito da foto: Amelia Gonzalez
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Jovens atuais são a maior força de trabalho da história brasileira, diz estudo
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(Mundo sindical, em 24.07.2013)
BRASÍLIA, QUI, 25-07-2013
Jovens atuais são a maior força de trabalho da história brasileira, diz estudo Os jovens brasileiros da atualidade são e serão a maior força de trabalho da história do país, tanto em nível absoluto quanto relativo, indica estudo da Secretaria de Assuntos estratégicos da Presidência da República e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgado segunda-feira (22) no Rio.
Nos próximos dez anos, a população jovem, de 15 a 29 anos, chegará a cerca de 50 milhões de pessoas, representando 26% da população. Somente a partir de 2025, esse número começará a declinar, diz o estudo. O tamanho relativo fica muito próximo da média mundial. Os dados fazem parte do primeiro fascículo de uma série que será publicada ao longo deste e do meio do ano que vem.
O estudo também ouviu mais de 10 mil jovens em diferentes partes do país para saber quais são suas prioridades em uma lista que inclui 16 temas. Para a maioria dos entrevistados (85,2%), educação de qualidade é o principal anseio, seguido por serviços de saúde (82,7%) e alimentação de qualidade (70,1%). Ter um governo honesto e atuante é a quarta prioridade do jovem brasileiros (63,5%).O modelo de perguntas usado é da pesquisa My World da Organização das Nações Unidas (ONU)para subsidiar novas Metas do Milênio para depois de 2015.
O presidente do Ipea, Marcelo Marcelo Neri, que chefia interinamente a Secretaria de Assuntos estratégicos, explicou que essa onda de longa duração aponta desafios enormes em termos de políticas públicas, que ainda não são aplicadas de forma eficiente para os jovens. “Essa onda jovem vai durar dez anos, mas já vem de dez anos antes. O Brasil já está fazendo mudanças importantes em políticas públicas, mas ainda há muito o que se fazer nesse campo”, disse Marcelo Neri.
“Essa pororoca jovem pede atenção. É preciso ouvir quais as prioridades desses jovens”, acrescentou Marcelo Neri. Segundo ele, mais do que políticas públicas de qualidade, ps jovens querem políticas adequadas às suas necessidades. Ele disse que as ações adotadas nos próximos dez anos serão decisivas para a economia e a política do país.
O subsecretário de Ações Estratégicas, Ricardo Paes de Barros, que coordenou o estudo, ressaltou que os próximos fascículos deverão aprofundar as demandas dos jovens e cruzar os dados com o que há de políticas públicas para esse setor. “Vamos cobrir a questão da educação e da distribuição de renda. Também estamos fazendo um levantamento completo de todas as políticas federais, estaduais, municipais, do terceiro setor. Vamos combinar essas demandas com as ofertas de políticas públicas para tentar identificar os gargalos e inadequações”, informou.
Barros, que considera dez anos um prazo razoável para correr atrás do tempo perdido, ressaltou que se, por um lado, o expressivo contingente de jovens pode gerar uma concorrência muito grande, por outro, com políticas acertadas, permite a interiorização da educação técnica e da superior, aumentamdo a especialização do conhecimento, entre outras vantagens.
Os pesquisadores ressaltaram que, embora a população jovem já tenha chegado a 30% da população, as taxas de mortalidade das gerações anteriores eram maiores que as da geração iniciada há cerca de dez anos, o que impedia que uma parcela dos jovens de então chegasse à idade economicamente ativa.
Fonte: Rede Brasil Atual – 25/07/2013
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Juventude que conta
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Marcelo Neri
BRASÍLIA, SEG, 22-07-2013
Na visão da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE/PR), não há melhor preditor disponível do futuro do país que o universo das crianças e dos jovens de hoje. Aí incluindo as suas respectivas tendências demográficas tratadas em detalhe na presente pesquisa. A SAE acaba de assumir a presidência da Comissão Nacional de População e Desenvolvimento (CNPD), indicando Ricardo Paes de Barros para liderar os trabalhos. A pesquisa aqui apresentada é a primeira realizada pela SAE após a criação da CNPD, tratando, não por coincidência, de demografia e escolhendo o que talvez seja o tema populacional mais intrigante de nosso tempo: a chamada onda jovem.
Pororoca Jovem – A pesquisa revela que o tamanho da população jovem brasileira nunca foi, e nunca será, tão grande quanto o de hoje, correspondendo a cerca de 50 milhões de pessoas na faixa entre 15 e 29 anos de idade, cerca de 26% de nossa população, proporção muito próxima à média mundial. Na verdade, estes 50 milhões de jovens brasileiros em ação correspondem a um “platô populacional” que começou em 2003 e, por força de mudanças demográficas diversas atuando em direções opostas, prolongará a onda até 2022, em formato de pororoca jovem. Depois de celebrarmos o bicentenário de nossa independência, o processo refluirá e a população jovem no Brasil cairá a uma velocidade mais alta que a dos demais países, com exceção da China. O Brasil precisa aproveitar ao máximo a longa duração da pororoca jovem para impulsionar suas transformações sociais e econômicas nas direções desejadas. Mas quais são as direções desejadas?
Não basta contar os mais jovens. Temos de fazer com que os jovens contem mais. É necessário que a juventude nos conte o que pensa e o que quer. A fim de empoderar na prática a juventude, ouvir é preciso. Não só para atender os anseios da juventude de hoje, mas a fim de decifrar os principais desafios ainda por vir do país. Os jovens são a principal porta de entrada de inovações nos valores e nas aspirações de cada sociedade, permitindo antecipar no tempo a formação do pensamento geral da nação. Exploro aqui um pouco as mensagens dos jovens brasileiros através de trailer de pesquisa sobre aspirações e valores da juventude.
Prioridades – Deciframos as principais prioridades em pesquisa domiciliar do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) que foi a campo em maio de 2013, consultando mais de 10 mil pessoas numa amostra representativa do país como um todo, e pediu para cada entrevistado escolher, entre 16 temas, quais são suas seis – e apenas seis – maiores prioridades. O modelo de perguntas utilizado vem da pesquisa Meu Mundo (My World), levada a cabo por agência das Nações Unidas em diversas partes do globo, o que permite comparabilidade internacional dos nossos resultados. O objetivo é subsidiar a definição das novas Metas do Milênio (Post-2015 Development Goals).
A mais alta prioridade dos jovens brasileiros é a educação de qualidade: 85,2% dos brasileiros de 15 a 29 anos elencaram esta opção entre as seis mais importantes dos 16 temas apresentados. Serviços de saúde (82,7%) foram a segunda opção mais apontada. Na população adulta não jovem, isto é, aqueles como 30 anos ou mais de idade, as duas maiores prioridades são as mesmas, mas em ordem invertida: saúde (86,6%), seguida de educação (80,5%). Na pesquisa mundial feita na internet pelas Nações Unidas, a ordem de prioridades se conforma com a dos jovens brasileiros.
Na sequência dos jovens, temos alimentação de qualidade (70,1%) como terceira menção mais frequente, fechando o pódio das prioridades da juventude brasileira. Incidentalmente, esses três elementos representam, no campo das políticas públicas, os três componentes do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU. Governo honesto e atuante aparece como a quarta prioridade dos jovens no Brasil, com 63,5%. Na população global consultada na internet, esta é a terceira prioridade, seguida de oportunidades de trabalho, que, num certo sentido, desempenha a função de renda do IDH – no sentido de geração de renda, ao passo que alimentação de qualidade representa a prioridade de gasto da mesma renda.
Agenda Jovem – No fundo, as agendas jovem e não jovem do país não estão tão desconectadas na escolha de prioridades. Utilizamos a pesquisa para contrastar quais são as prioridades dos jovens brasileiros vis-à-vis os adultos não jovens da sociedade. A chamada agenda jovem se refere àqueles elementos que são relativamente mais importantes para eles do que para aqueles com 30 anos ou mais. Note-se que não falamos do que é prioridade para os jovens, o que será tratado mais adiante, mas da dissonância entre a agenda elencada pelos jovens em relação à dos adultos não jovens. Esse contraste nos permite identificar possíveis conflitos de gerações e, portanto, possíveis razões para protestos juvenis.
Vamos à análise dos números: a maior diferença está na importância dada à educação de qualidade (4,7% mais naqueles entre 15 e 29 anos vis-à-vis aqueles com 30 anos ou mais), eliminação do preconceito e da discriminação (3,6 p.p. mais), melhoria nos transportes e estradas (3 p.p. mais), melhores oportunidades de trabalho (3 p.p. mais), liberdades políticas (2,4 p.p. mais), acesso a telefone e internet (1,8 p.p. mais) e proteção a florestas, rios e oceanos (0,9 p.p. mais). A maior importância atribuída pelos jovens à educação e às oportunidades de trabalho é natural nessa fase do ciclo de vida. Estudo, desemprego e busca de liberdade política são elementos marcantes dos jovens de muitas gerações. Elementos da nova geração – isto é, dos jovens de hoje, mas não necessariamente dos jovens de décadas passadas – são combate à discriminação, defesa do meio ambiente e acesso à internet. A ênfase dada a este último elemento, de conectividade digital, e à mobilidade urbana coincidem com o meio e o fim a partir dos quais os protestos de junho no Brasil inicialmente eclodiram.
Agenda Antiga – Similarmente, podemos elencar os principais pontos da agenda não jovem, isto é, elementos que pesam relativamente mais nas prioridades daqueles com 30 anos ou mais. Nesse caso, a agenda é acesso a alimentos de qualidade (6 p.p. menos para os jovens), melhoria dos serviços de saúde (4,7 p.p. menos), proteção contra o crime e a violência (3,4 p.p. menos), apoio às pessoas que não podem trabalhar (2,8 p.p. menos), governo honesto e atuante (2,2 p.p. menos), acesso à água potável e ao saneamento (1,2 p.p. menos) e igualdade entre homens e mulheres (0.8 p.p. menos).
Como diz a música dos Titãs, jovens não querem só comida, ao passo que saúde e aposentadoria são questões que afligem mais os mais velhos. Igualdade de gênero se destaca mais nas faixas etárias mais avançadas, em que a população feminina, mais longeva, supera especialmente a masculina. Outros integrantes da agenda mais antiga, talvez pela incapacidade de sucessivos governos endereçá-las, são violência, corrupção e saneamento básico.
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Jornadas de junho: jovens, trabalhadores e descrentes da ascensão social
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Colunistas| 28/09/2013 | Copyleft
DEBATE ABERTO
É o que diz a pesquisa sobre as manifestações populares de junho, coordenada pelo professor Marcelo Ridenti, da Universidade de Campinas (Unicamp), apresentada em mesa do encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs).
Os manifestantes das jornadas de junho deste ano eram sobretudo jovens trabalhadores e descrentes da ascenção social . Essa é uma das conclusões da pesquisa coordenada pelo professor Marcelo Ridenti, da Universidade de Campinas (Unicamp), apresentada em mesa do encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs).
Segundo Ridenti, os manifestantes souberam se expressar nos moldes da sociedade do espetáculo e da cultura da celebridade, disse fazendo referência a Guy Debord (1931-1994) e sua obra, “A Sociedade do Espetáculo” (DEBORD, Guy. La société du spetacle. Paris, Buchet-Chastel, 1967).
O professor destaca a diferença essencial dos protestos ocorridos no Brasil em relação a outros países. Por aqui, são jovens com emprego. A maioria trabalha, são recém-formados e nem sempre encontram, no trabalho, a possibilidade de manter o mesmo padrão de vida familiar ao qual estavam acostumados em suas famílias de classe média. Desconfiam de suas próprias possibilidades de ascensão social pelo estudo.
Uma pesquisa anterior, feita pelo Ibope, trouxe dados similares ao do perfil encontrado pelos pesquisadores da Unicamp. Cerca de 63% dos manifestantes tinham entre 14 a 29 anos, enquanto 18% tinham entre 30 a 29 anos. Cerca de 93% tinham o ensino fundamental completo e nível superior incompleto ou já completo. Em torno de 76% trabalham. A maioria ganha entre 2 a 5 salários mínimos, sendo que 26% estão na faixa de remuneração de 5 a 10 salários mínimos.
É uma contradição da própria melhoria das condições sociais do país na última década. Hoje, conforme lembra Ridenti, existem quase 7 milhões de universitários, o dobro do que era, uma década atrás.
As chances de ascensão, nesse sentido, exigem mais dos jovens de classe média, hoje, do que no passado. Seu futuro é incerto. A única coisa segura é que eles vieram para ficar.
Antonio Lassance é cientista político e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente opiniões do Instituto.

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